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| POLITÃCA |
Planalto de Bolsonaro pressionou para que PF ligasse facada ao PCC
Novo inquérito sobre o atentado será concluÃdo em breve e jogará luz sobre a pressão polÃtica exercida sobre a corporação 21/06/2023Rodrigo Rangel/Metrópoles
A Polícia Federal está prestes a concluir a derradeira etapa das investigações sobre a facada em Jair Bolsonaro na campanha eleitoral de 2018. De novo, a conclusão será a de que Adélio Bispo, o autor do atentado, agiu por conta própria. O resultado dessa nova etapa da apuração não apenas reforçará o que a própria PF já havia concluído antes de o inquérito ser reaberto como também jogará luz sobre um complicado movimento de bastidores ocorrido na reta final do governo Bolsonaro: houve forte pressão política — do Palácio do Planalto, inclusive — para que os investigadores apontassem a existência de uma suposta ligação da tentativa de assassinato com o PCC, o Primeiro Comando da Capital.
Nos bastidores, fontes graduadas da PF dizem que são cristalinas as evidências dessa pressão. Até recentemente, havia uma discussão interna sobre o que fazer com essas evidências. Desejo de Bolsonaro
Já durante a corrida presidencial de 2022, o então presidente e candidato à reeleição queria usar o caso para se cacifar eleitoralmente. Ele entendia que se a Polícia Federal fizesse algum movimento no sentido de relacionar a facada ao PCC, teria dividendos políticos e ampliaria suas chances de derrotar Luiz Inácio Lula da Silva nas urnas. Com o processo eleitoral já em curso, a PF chegou a pedir à Justiça Federal autorização para realizar buscas em endereços ligados a um advogado de Adélio que, se tivessem sido feitas, poderiam atender ao interesse (e às cobranças) de Bolsonaro. Mas o juiz do caso, Bruno Savino, decidiu não autorizá-las justamente em razão da desconfiança de que o pedido escondia uma estratégia que poderia ter fins eleitoreiros. Essas mesmas buscas foram liberadas só depois e cumpridas em março deste ano, com a PF já sob nova direção. Por duas vezes, as investigações sobre o atentado já haviam sido encerradas pela PF e chegado à conclusão de que o atentado não teve mandantes. A última delas foi em 2020. O caso, porém, foi reaberto já no final de 2021, depois que a o Tribunal Regional Federal da 1ª Região, com sede em Brasília, liberou o acesso ao telefone celular de um dos advogados que se apresentaram para defender Adélio logo após o crime. Ao menos um desses advogados tinha, de fato, ligação com o PCC. Era justamente isso que Bolsonaro queria que a PF explorasse, com pompa, circunstância e barulho. O advogado de Adélio e o PCCComo o plano não deu certo, a conclusão da investigação acabou ficando para a nova direção da corporação, já sob o governo de Lula. Com um detalhe curioso: o delegado que havia tocado as duas fases iniciais do inquérito e concluído que Adélio Bispo agiu sozinho passou a ocupar uma das posições mais poderosas e sensíveis da hierarquia interna. Rodrigo Morais Fernandes virou diretor da DIP, a Diretoria de Inteligência Policial, justamente onde a apuração vinha correndo. Já neste ano, a investigação passou por uma espécie de “processo de desintoxicação”, para eliminar o que a nova cúpula da PF entendia como “forçação de barra” para conectar o atentado ao PCC. Feita a análise nos arquivos do celular do tal advogado de Adélio, chegou-se então à conclusão de que ele tinha, sim, clientes ligados à facção, mas que em nenhum momento essa conexão teve relação com a tentativa de assassinato de Jair Bolsonaro em Juiz de Fora, em 6 de setembro de 2018. É com base nisso que a PF dirá, de novo, que Adélio agiu sozinho, sem cúmplices ou mandantes — e que, a despeito do desejo de Bolsonaro, o atentado não foi arquitetado ou patrocinado pelo PCC. |
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