Bem que a gente podia fazer uma reforma para valer, não essas dos políticos e dos papéis, mas alguma coisa pessoal. Vital. A reforma das nossas prioridades.
A gente cansa de ouvir dos políticos e não políticos reclamarem que não têm tempo nem para respirar, nada mais todos os dias diante da televisão, este instrumento que revela falcatruas e negócios escusos cotidianamente, não é mesmo? Quantas babaquices e envolvimento entre políticos, para roubar o dinheiro público com a maior facilidade, inimaginável, não é mesmo? Fatos e atos estes, tão fáceis de ouvir e ver pelo rádio e televisão, hodiernamente. São tantas coisas que até Deus duvida. Cansei de ouvir políticos reclamando que não têm tempo nem para respirar, pois tem que visitar áreas urbanas e suburbanas para conhecerem os problemas das comunidades. Pura balela e coitada das comunidades que os elegeram, e muito menos sossego em família. Na maioria das vezes correm abobadíssimos para cumprir mil tarefas, das quais noventa e nove seriam dispensáveis se a gente os vigiasse como manda a lei.
Gente, tempo é dinheiro, diziam os pragmáticos, e isso se tornou lei universal. A conta do banco, o colégio dos filhos, o plano de saúde, principalmente, neste país “grande e bobo” onde o INSS é meio suicídio andado, o restaurante e o bar, a roupa de grife e para as mulheres, e a mochila escolar do momento, sem a qual, é claro, o filho não garante nem que consiga passar de ano. A lista é longa, segundo a preferência de cada um. Fico imaginando que se a gente fizesse uma faxina em nossos compromissos e deveres, boa parte desapareceria ligeiro no ralo do bom senso, e desapareceria para todo o sempre no nebuloso das nossas iniquidades mais banais. Sobrariam alguns compromissos dos quais não há como fugir: provavelmente saúde, prestação do apartamento, escola para os filhos e alguns outros. Comprar não é dever, quando não se trata do indispensável ou do que faz bem. Comprar pode ser, e tem sido, em grande moda, mania, quase neurose.
Andar com a roupa do momento pode se burro e pobre: porque então, todas as meninas parecendo fantasiadas para desfilarem no mesmo bloco? Por que todas com as mesmas sandálias só porque alguém na TV assim anda? Por que pais e mães se sacrificam para poderem dar aos meninos alguns absurdos caros, talvez ridículos? Ah! é a moda. Vamos estar na moda. Gente, não quero que meus netos e netas andem muito diferentes de sua turma. Mas não desejaria que seus pais trabalhassem mais horas do que o necessário para lhes permitir algumas insanidades.
Não acho que os casais precisem ter apenas, para seu encontro, as poucas horas danoite, exaustos do dia inteiro, da hora extra, quem sabe até do trabalho no fim de semana. Se for para sobreviver com dignidade, paciência: muitas vezes tem de ser.
Mas, muitíssimas vezes não precisaria ser assim. Labutamos como animais para além do que seria humano, e para aquilo que nem é importante: para o fútil excessivo, um pouco de futilidade, sim, ou nos desumanizamos, para o mais do que tolo: um pouco de tolice, sim, ou viramos estátuas.
Uma hora menos de trabalho extra por dia – não vou poder comprar aquele tênis importado caríssimo, o meu filho vai emburrar – pode significar uma hora de carinho, de convívio a mais. Já pensou nisso, caro ouvinte?
Um fim de semana menos de trabalho extra – mas como vou dar aquela roupa caríssima, a minha filha vai se frustrar, e tem o cursinho de inglês, e o de nem me lembro mais o quê... e ainda, minha mulher quer aquelas férias naquele hotel caro em Jaboatão, Pernambuco. Imaginem! Chegou a hora de trocarmos de carro, para aproveitar o momento. Ah! Meu Deus do céu! Como vou aguentar tudo isso!
Gostaria de aproveitar meu tempo ficando quieto na rede, uma ida à praça pública, até na cama, se possível, de bobeira. Olhando a nuvem, o galho de flor pela janela, deitado na grama ou na areia com a cara no sol, sentindo o mundo respirar, e fazendo parte desse ritmo imenso. Sentindo que somos gente, dentro de algo misterioso chamado vida. Reformulando nossos planos, tentando saber o que queremos para nós mesmos. Muito do que gastamos, ou desgastamos nesse consumismo feroz podia ser negociado com a gente mesmo: uma hora de alegria em troca daquele sapato que estou namorando há tempos. Talvez uma tarde amor em troca da prestação do carro do ano; um fim de semana em família em lugar daquele trabalho extra que está me matando e ainda por cima, detesto.
Não sei se sou um otimista demais, ou fora da realidade. Mas, à medida que fui gostando de usar bermudas, camisetas e tênis, me agitando menos, querendo ter menos, fui ficando mais tranquilo e mais divertido. Sapatos e roupas simbolizam bem mais do que isso que são: representa uma escolha de vida, uma postura interior. Nunca fui uma pessoa além da realidade que sou, Graças a Deus. Mas amadurecer me obrigou a fazer muita faxina nos meus guarda-roupas da minha alma e na bolsa também. Resistir a certas tentações é burrice; mas fugir de outras pode ser crescimento, e muito mais alegria. Já pensou nisso também?
Após ouvir ou ler esta crônica, ora escrita, cada um examine o baú de suas prioridades, e faça a arrumação que quiser ou puder. Que tudo isso que você ouviu ou após ter lido seja para aliviar sua vida, o coração e o pensamento – não para inventar ou acumular ali mais alguns compromissos estéreis e mortais. Até a próxima semana, se Deus quiser!